Teoria do Amor Doído

 Palavras secas doem, mas também ensinam a viver.
A viver atentamente, pelo menos…

Ao receber rispidez de onde antes só saia afabilidade descortina-se um mundo de idéias conflitantes e questionadoras. Não fosse o descompasso que isso ocasiona até seria bom experimentar deste fel vez ou outra para compreender que as relações humanas são alvos certeiros de desavenças, dúvidas e irregular interação.

Linearidade não existe quando se fala em amor. Amor de verdade, como se vê por aí, precisa do instigante sabor do destempero para reconhecer-se vivo e palpitante. Pode parecer leviano esperar que a fonte do sentimento mais procurado esteja quase sempre perdida em espaços cheios de arestas afiadas. Amar é saber arriscar! Amar é o risco da existência!

Amores tranqüilos, cheios de bossa e brisa são raros hoje em dia. Amores assim são oriundos de um tempo que já preenche o túmulo do passado. Raridade.
Já ouvi algumas pessoas afirmando que só é possível saber quem se amou de verdade perto da partida definitiva. “Eu te amo” virou jargão! Banalizou tal qual grafite em prédios públicos. Todo mundo diz, todo mundo diz que sente, todo mundo tudo…

E assim sendo é fácil confundir amor com apego, instropecção com carência, afetividade e carinho com “segundas intenções”. Tão fácil dizer que ama sem reconhecer, de fato, a verdade dos sentimentos que invadem o corpo sem pedir licença. Amor comum é amor substituível, amor descartável, amor banal.
Pode parecer com isso que o que vale realmente é a expectativa de encontrar o tal do amor verdadeiro do que as experiências corriqueiras ocasionalmente experimentadas. É, poderia até ser uma boa idéia! Mas, não há tempo produtivo capaz de construir um ser humano com perfeição para a sublimação sentimental. Não há tempo! Não há como ser perfeito antes para só encantar-se depois. A existência é tão urgente quanto a dose diária de carinho recomendada. Só que, por não haver tempo, atropelam-se todos os presentinhos da trajetória por qualquer coisa, por um não sei lá o quê.

Dá pra saber se há amor, baseando-se na fóbica realidade humana, quando há opressão e medo de perder. Quase um índice, categórico! Opressão que leva ao receio que leva a angústia que leva a solidão que remete ao amor. Parece complicado, mas é quase sempre assim que as coisas do coração funcionam. Parece que a possibilidade de perder a quem se ama sufoca. Aliás, parece não… Sufoca! Filminhos são projetados mentalmente e a agonia de ver que a história pode receber um ponto final a qualquer momento encerra qualquer dúvida. De repente, você olha para os lados e não vê nada nem ninguém. Só percebe a voz e trata logo de confundir entre a voz da realidade e a voz do coração para entrar na zona de conforto que ainda lhe permite pensar. Dá pra saber quando se ama muito alguém quando a promessa do sorriso escondido se transforma numa apoteótica tempestade. Sente-se até frio!

É tão sério entregar tempo e afeto a outra pessoa que, distraidamente, cruza seu caminho. É quase como reescrever a teoria da relatividade: pode mudar completamente a vida!
Desvendar-se diante de alguém é mais complexo que despir-se. Expôr, ainda que moderadamente, aquilo que se é quase sempre causa vertigem e quase nunca é retrato real. O ser humano é desconfiado por natureza e até amando (ou propondo-se tal hipótese) reproduz um cenário fantasioso e camuflado. Qualquer coisa dita ou não dita repercute por muito e muito tempo. Por isso, tanto cuidado! Excesso de zelo dispensável. Se todos bem soubessem jogá-lo-ia na primeira lata de lixo surgida. Serve apenas para gerar decepções, frustrar expectativas e quebrar o encanto.

Uma pena que tal lição seja regularmente aprendida com metodologia retrógrada. Faz sofrer, faz chorar, faz mal. Perde-se mais tempo na horizontal pelo imediatismo proporcionado pelo momento do que tecendo as matrizes da durabilidade de uma relação.

Tudo que é comum a duas pessoas deve sim, ser compartilhado. O mistério é permitido apenas como arma de sedução. Dívidas, problemas, estresses, preocupações e carinho precisam, sim, ser intensa e insanamente vividos em conjunto. É difícil conceber a idéia de uma entrega tão abdicada de orgulho, egoísmo e desconfiança, mas, pra valer realmente a pena, tem que ser. Muitas vezes, só se aprende esse ensinamento através de doídas acusações que demonstram fielmente a imensidão do erro cometido. A insensatez das tão comuns atitudes egocêntricas só revela a burrice de querer carregar o mundo nas costas sozinho. Ao invés de heróis e heroínas transformamo-nos em seres mesquinhos, limitados e irracionais. Tão mais leve e colorido fica o dia quando se contempla o amanhecer ao lado de quem se ama. Já que pode ser assim com o clarear da manhã que seja também com a resolução das amarguras. Mais leve, mais tranqüilo, mais capaz.

As brechas criadas pelas falhas do amor unifocal são difíceis de serem recompostas. Entender que cada pessoa tem seu tempo de processar informações é salutar. Feridas abertas demoram a cicatrizar, mas, o amor de verdade sempre é soberano. Ele é benevolente, altruísta e solidário. Mesmo que haja esforço para provar o contrário. O portador do amor real é, quase sempre, alguém que esconde suas mais virtuosas características em personagens irreverentes. Quase sempre parece tratar-se de alguém incapaz de amar de verdade! Quem teve a oportunidade de deparar-se com um portador do amor real sofre de encantamento instantâneo. Torna-se tão fácil convencer-se das suas qualidades que qualquer lampejo de entristecimento provocado ou adquirido gera desconforto ferrenho na outra metade. Além de paciência e respeito ao relógio emocional peculiarmente programado, é preciso acreditar, cegamente, na força da união do amor. É preciso acreditar que a mágoa será passageira, que o perdão será reação de reflexão e que as hachuras, além de não comprometerem as estruturas, ganharão novas matizes e brilharão ainda mais reluzentes.

Amar e ser amado é a mais complexa oportunidade de reconhecimento, crescimento e amadurecimento que o homem pode viver. Saber-se amante e sentir-se amado deve assemelhar-se muito com o despertar matinal. É uma benção! É um estado permanente de gratidão! Superar todas as agruras, aprimorar o encantamento, fazer prevalecer a concordância mútua é simplesmente um espetacular exercício de engrandecimento humano.

Por isso, a tranqüilidade e a segurança da certeza de conhecer quem se ama dissipa qualquer neblina e faz resplandecer horizontes plenos e inimagináveis de regozijo!
Amar é arte de transformação contínua capaz de mover o orgulho e o egoísmo para os bueiros da descrença infundada.

Amar é sempre mais que tudo!

Amar é sempre mais…

1 Resposta até o momento »

  1. 1

    Vanessa. disse,

    Que bonito esse seu espacinho. E que bonitas as suas palavras. Vou continuar a lê-la :)


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