Pretensiosa e Apaixonada

Era inevitável não rir…

Hábil em contar exatamente as coisas que eu gostava de ouvir, sobre mim e sobre as outras pessoas, ele prevalecia-se dessa artimanha para ganhar meus melhores risos e alfinetar minha vaidade com agulha de ouro.

Observador atento do comportamento feminino, ele sabia como ninguém o jeito certo de prender minha atenção em suas histórias cotidianas que sempre me deixavam em estado de inquietação. Os trejeitos, o tom da voz, o olhar…Até o charminho era calculado pela medida da minha ansiedade. Ele era demais!

Os “causos” versavam pelo tema preferido pela maioria dos homens: mulheres. Mulheres e suas diferenças, mulheres e suas similaridades. Mulheres e o universo vastamente estudado e pouco compreendido. Considerando-se uma espécie em extinção e dono de um particular conhecimento sobre os desejos femininos, ele sabia como despertar interesse. No assunto e nele.

Tinha verdadeira tara em ouvir seus relatos. O que ele sabia (ou dizia saber) era transmitido com tanta segurança que, não fosse eu egoísta demais, formaria uma roda em torno daquele homem misterioso para socializar aquelas informações. Era como se ele estivesse lendo os pensamentos. Eu tinha vontade de ler os pensamentos dele. Certamente, haveria muito mais delícias…As conquistas, a arte do encantamento, o encontro, o beijo, o sexo pareciam ter encontrado o orador perfeito para disseminação. Ele era ideal para tal tarefa!

Impossível não escutá-lo falar sobre sexo sem ter a libido mexida. Inevitável era o desejo de comê-lo, pacientemente, como quem aprecia o mais requintado banquete. Isso! Era exatamente isso que ele era: um banquete. Aperitivo, entrada, prato principal e sobremesa ao alcance das mãos. Não bastasse o papo descontraído, aquele homem era dono de um porte físico capaz de esculpir silenciosamente os mais ardilosos bacanais.

Sentia-me entregue e detestava isso. Detestava ser previsível. Odiava saber que para ele era fácil decifrar meu raciocínio. Mas, como um polvo, sagaz e sorrateiro, ele me envolvia em palavras, pecados e juras de amor.

Confidente! Intíma demais! Por isso, a única pessoa capaz de ouvir as confidências sobre outros amores, tesão e solidão. O que mais eu poderia fazer além de rir? Meu Deus, ele me contava tudo – acredito eu – o que as outras falavam. Sobre as taras, os sonhos, o ciúme. E, mesmo gostando de saber que, no fim das contas, o amor daquele enigma em forma de gente era meu, sabia do papel de cafajeste do moço. Afinal de contas, ele poderia sair por aí compartilhando nossas conversas com galinhas estúpidas e toupeiras bípedes. Mas, apesar da dúvida, eu preferia, sempre, acreditar nele. Acho que era nele que eu acreditava. Ou será que acreditava no amor que sentia?

Deixa pra lá!

Eu queria muito aprender com ele a racionalizar o amor. Mesmo correndo o risco de assumir um jeito machista de encarar um sentimento. Eu só queria tornar facílimo para mim resistir a vontade de ligar, contar histórias fictícias para provocar ciúmes, ouvir as músicas da relação como se fosse o hit do verão sem demonstrar abalo. Juro. Essa equiparação sentimental eu faria questão de defender. Mesmo sabendo que o coração dele palpita por mim.

Precisaria de militantes. Mulheres dispostas a defender a classe dos cafajestes inesquecíveis. Sozinha eu não consigo!

Enquanto escrevo estes devaneios, pintou uma vontade de rir. Acabei de lembrar dele e das criancices de que ele é capaz. Acho que é por isso que sinto esse calorzinho agoniado quando o vejo passar. Ele abriga os extremos sem grandes confitos. Consegue ser rude e consegue ser fino em menos de 15 minutos. Consegue experimentar o sexo alheio e jurar amor eterno no mesmo dia. Consegue despertar raiva e conquistar o mesmo amor puro com duas ou três palavras mágicas. Consegue desafiar minha inteligência e declarar-se um perfeito idiota só para me agradar…

Eu sei quem ele é de verdade e o que sei, para mim, basta!

Sei que ele é meu. Os rótulos foram dispensados pela descoberta de paixões arrebatadoras. Somos espíritos afins. Somos amantes das mesmas coisas. Somos ímpares mas sabemos formar um par.

Sei que ele rirá ao ler esse texto parido quase à meia-noite, mas, é que sem mim, ele é bem menos do que quando está ao meu lado. Isso prova que, depois de mim, ele descobriu ser uma pessoa bem melhor, mais completa e menos superficial. Descobriu que existem coisas mais importantes do que súbitas e levianas vontades. Ele descobriu o amor!

Pode rir!

Eu sei que sou assim, pretensiosa, leonina e exagerada…

Mas é nessa mulher, e não nas outras (as galinhas estúpidas e as bípedes toupeiras) que ele alimenta a alma de felicidade…

 

 

 

 

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    w.Moscolini disse,

    “Mas é nessa mulher, e não nas outras (as galinhas estúpidas e as bípedes toupeiras) que ele alimenta a alma de felicidade…
    Isso ficou um pouco pretencioso, não achas?

  2. 2

    Mari disse,

    ‘ Adoreii .
    Me fez sorri bastante .
    (confesso me identifiquei)
    Sou um tanto pretensiosa !
    Beijoos


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